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Múltiplos coletivos culturais difundem a cultura afro-brasileira

14 de agosto de 2012

Antropóloga pesquisa as representações culturais negras da área portuária do Rio

Leia na íntegra a matéria publicada na 34ª edição da Folha da Rua Larga

Há 14 anos a antropóloga Luz Stella Rodríguez Cáceres estuda comunidades negras e políticas das identidades na América Latina. O interesse pelo tema começou na Colômbia, seu país de origem, e nos últimos anos concentrou-se no Brasil. Há três meses ela defendeu a tese “Lugar, memórias e narrativas da preservação nos quilombos da cidade do Rio de Janeiro”, no departamento de Geografia da UFRJ.

A sua pesquisa está relacionada à territorialidade, e ao caráter social da questão: “Quando falamos de quilombos estamos falando de movimentos sociais contemporâneos. Como definição quilombo não se refere a resíduos arqueológicos de ocupação temporal. Também não se trata de grupos isolados ou de uma população estritamente homogénea, consistem sobretudo em grupos que desenvolveram práticas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos num determinado lugar”.

Stella explica que as atuais comunidades quilombolas têm como característica principal a luta por direitos territoriais e reconhecimento ante o estado: “os atuais quilombolas são os novos sujeitos de direitos. São grupos que buscam uma cobertura social na lei”. Trata-se de uma categoria política em disputa, e em permanente redefinição. E se bem esta definição tem representado uma ruptura no plano conceitual das ciências sociais no Brasil, ela não se encontra ainda plenamente estabelecida e comporta uma diversidade de situações para os grupos que a assumem como identidade.

A pesquisadora ressalta que iniciou sua pesquisa com o Quilombo de Sacopã, na Lagoa, composto por uma família de umas 30 pessoas, e decidiu incluir o quilombo da Pedra do Sal a partir de uma notícia veiculada na mídia, que anunciava um conflito de tipo fundiário no local. Passou então a fazer pesquisa de campo no lugar. O campo lhe mostrou que além do quilombo da Pedra do Sal, tinha também na região portuária outros coletivos que se identificavam como herdeiros de uma memoria afro-brasileira, os quais fazem diversas apropriações do espaço a partir de manifestações públicas como rodas de samba, rituais religiosos e onde também aparecem comidas associadas à culinária negra. “Como é um lugar no que participam múltiplos atores, os significados são múltiplos, pelo que é difícil pensar em uma única fronteira” Entre os diversos grupos que encontram identidade com Pedra do Sal se encontram o Centro Cultural Pequena África, as rodas de samba, especialmente Samba na Fonte, e outros coletivos que sem ser da região tem fortes laços com o lugar. Algumas atuações como a do Centro Cultural Cartola, na comemoração do aniversário da Fundação Cultural Palmares, por exemplo, perturbam a explicação mecânica de pertencimento enraizado ao lugar pela via dos laços entre o território e a identidade.

De acordo com a pesquisa, a Pedra do Sal veio se apresentando como uma espécie de nó, em uma dinâmica cultural que reúne pessoas das mais diversas origens: “Samba na Fonte por exemplo, conseguiu atrair músicos e compositores de lugares como Salgueiro, Engenho da Rainha, Campo Grande, Niterói, Gamboa, Estácio, Bangu, Penha, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Engenho Novo, Tijuca, Água Santa e Catumbi”. Segundo ela, essas práticas culturais, por exemplo, descentram a Pedra do Sal, criando uma ruptura entre o lugar da residência e o lugar do pertencimento permitindo exercer sua influência além das fronteiras micro-locais. Estas experiências musicais geram um lócus de cultura menos essencializado, que abre as portas aos que quiserem participar e propõem uma apropriação multilocalizada. Certamente  há uma ligação aqui com o impacto e ressonância que produziu seu tombamento”

 

Em que contexto a Pedra do Sal foi tombada?

Aconteceu em um momento pós-ditadura, no governo de Brizola e quando Darcy Ribeiro apoiou a monumentalização de espaços públicos e populares, foi na mesma época em que se promoveu a reforma no sambódromo e se planteava a necessidade de situar um local de homenagem à negritude carioca, visto que a decisão de fazer um monumento a Zumbi dos Palmares tinha se complicado nas viradas da política da época. As versões que se referiam a este lugar como uns dos berços do samba, também ajudaram na sua consolidação como monumento.

 

Por que decidiu estudar as comunidades quilombolas?

Sou colombiana e trabalhava com comunidades negras colombianas desde 1998, pela similitudes entre ambos os países quis comparar. O Brasil é o maior pais com população afrodescendente na América Latina, a Colômbia é o segundo, também estavam as semelhanças em termos dos desenvolvimentos jurídicos para proteger comunidades negras rurais. Sempre trabalhei na área rural. Quando cheguei ao Brasil não estava pensando em pesquisar na cidade, cheguei ao trabalho urbano pelo acaso, mas me surpreendi, a cidade é uma selva de símbolos. Aqui no Brasil os estudos socioculturais no espaço urbano são muito desenvolvidos.

 

Como você se inseriu no campo?

Comecei a trabalhar na comunidade Sacopã, na Lagoa, com uma família de aproximadamente 30 pessoas. A partir de uma notícia que saiu na mídia tomei conhecimento da Pedra do Sal. Conheci o local e comecei a fazer uma etnografia do lugar e não do grupo. Interpretei o quilombo como um ator a mais na Pedra do Sal. Contudo, a porta de entrada para minha pesquisa no local, foi o conflito entre a comunidade quilombola e a VOT.

 

O que mais a encantou no objeto?

Fiquei impressionada com a riqueza da história, relacionada à inserção do negro no Rio de Janeiro. Era um lugar extremamente marcado pela historia, carregado simbolicamente que aparecia como fonte de representação e memória para muitos sujeitos e coletivos negros da cidade. O bloco Afoxé Filhos de Gandhi, Samba na Fonte, Centro Cultural Pequena África… A pedra do sal é um marco da história afrocarioca. Mas a pesquisa me permitiu entender que não se trata de uma memória única, há várias memórias concorrentes, historias e contradições que avivam no lugar. Fui mapeando os movimentos.

 

Como percebeu a influência do Porto Maravilha no local?

Acho que tem um papel muito ambíguo. Quando me aproximei do campo, o projeto Porto Maravilha era apresentado por diferentes atores como o vilão da história, mas hoje esta mediando, entre outras coisas, processos relacionados com a descoberta do passado e da memoria africana da região. Sua atuação para a modernização da região tem possibilitado a presentificação desse passado a partir das escavações arqueológicas. Agora o projeto Porto Maravilha aparece como o salvaguarda dessa memória, mas vale a pena perguntar-nos, se não estamos assistindo para uma neutralização das demandas dos coletivos sociais.

 

De que maneira a memória afrodescendente local está sendo tratada?

Em minha opinião há um risco de cair na banalização dessa memória a partir da sua mercantilização. Temos que pensar, por exemplo, o que significa edificar um memorial da diáspora africana? É um marco zero que contem algum tipo de reconciliação entre as partes afetadas pela escravidão e seus descendentes, ou é apenas um item mais para atrair turistas à região, enquanto as pessoas por exemplo continuam a serem movidas como coisas no atual contexto das remoções que se vivenciam na área portuária? A mercantilização da memória fica evidente na quantidade de visitas guiadas que surgiram da região, ou na proposta do atual prefeito para que o Hotel Barão de Tefé seja comprado por Eike Batista, sob a promessa do local se constituir no novo cartão postal da cidade.

 

sacha leite

sacha@folhadarualarga.com.br

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